3.12.09

Pareço de ressaca, mas é apenas sono, meu corpo dando sinais. Os últimos dias tem sido estranhos, longos, mormacentos, nebulosos, com ar de sonho, e eu me sinto me perdendo de mim aos poucos, sem saber onde vai dar. Eu caio tanto. Eu subo uns degraus também, tento avançar o quanto posso. As quedas me deixam marcas, o que torna difícil esquecê-las. Os avanços são sutis, é preciso esforço para enxergá-los, é preciso estar super consciente, despido do efeito colateral das quedas. E, ao mesmo tempo, é nessa transparência que preciso me agarrar.

Difícil sair desse estado de entorpecimento.
Preciso de ar fresco.

24.11.09


Dói essa ausência de espanto. Eu já não sei se sinto, eu constato. Tem sido assim. No fundo eu fico torcendo para que algo me abale, me mobilize, me faça querer mudar de vez, me faça sair correndo. Não acontece. O que há é essa sucessão de desencontros, quase sempre conduzida por mim. Eu prevejo o erro, sei onde vai dar. Tão monótono que nem me fere, e esta ausência de dor me reduz.

É nessas horas que eu percebo o quanto me falta, o quanto eu ainda estou longe de mim.

Que a minha leveza não venha da ausência de cargas, porque eu sou forte e posso suportar. Que ela venha, sim, da consciência do peso e do desgaste, da experiência dos ombros calejados.

Que eu não busque ouvir os versos que eu escrevo na boca de outros.


23.11.09

Transformações

Para Domingos LalainaJr.

Feito febre, baixava às vezes nele aquela sensação de que nada daria jamais certo, que todos os esforços seriam para sempre inúteis, e coisa nenhuma de alguma forma se modificaria. Mais que sensação, densa certeza viscosa impedindo qualquer movimento em direção à luz. E além da certeza, a premonição de um futuro onde não haveria o menor esboço de uma espécie qualquer não sabia se de esperança, fé, alegria, mas certamente qualquer coisa assim.
Eram dias parados, aqueles. Por mais que se movimentasse em gestos cotidianos - acordar, comer, caminhar, dormir, dentro dele algo permanecia imóvel. Como se seu corpo fosse apenas a moldura do desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos, olhos fixos na distância. Ausentou-se, diriam ao vê-lo, se o vissem. E não seria verdade. Nesses dias, estava presente como nunca, tão pleno e perto que estava dentro do que chamaria - tivesse palavras, mas não as tinha ou não queria tê-las - vaga e precisamente de: A Grande Falta.
Era translúcida e gelada. Tivesse olhos, seriam certamente verdes, com remotas pupilas. À beira da praia certa vez encontrara um caco de garrafa tão burilado pelas ondas, areias e ventos que cintilava ao sol, pequena jóia vadia. Apertou-o entre os dedos, sentindo um frio anestésico que o impedia de perceber as gotas de sangue brotando mornas da palma da mão. Era assim A Grande Falta. Pudessem vê-lo, pudesse ver-se, veriam também o sangue, ele e os outros. Acontece que tornava-se invisível nesses dias. Olhando-se ao espelho, sabia de imediato que estava dentro Dela. No vidro, além dele mesmo, localizava apenas um claro reflexo esverdeado.
Ela estava tão dentro dele quanto ele dentro Dela. Intrincados, a ponto de um tornar-se ao mesmo tempo fundo e superfície do outro. Amenizava-se às vezes no decorrer do dia, nuvens que se dissipam, turvo de água clareando até o cair da noite surpreendê-lo nítido, passado a limpo, passado a ferro. Então sorria, dava telefonemas, cantava ou ia ao cinema. Mas em outras vezes adensava-se feito céu cada vez mais escuro, turvo agitado subindo do fundo, vidro bafejado. Sem dormir, fosforescia entre os lençóis ouvindo os ruídos da madrugada chegarem como abafados por uma grossa camada de algodão. Dissipava-se ou concentrava-se na manhã seguinte e, concentrando-se, não era uma manhã seguinte, mas apenas uma fluida e mansa continuação sem solavancos.
Seu maior medo era o destemor que sentia. Íntegro, sem mágoas nem carências ou expectativas. Inteiro, sem memórias nem fantasias. Mesmo o não-medo sequer sentia, pois não-dar-certo era o natural das coisas serem, imodificáveis, irredutíveis a qualquer tipo de esforço. Fosse íntimo das águas ou dos ares, teria quem sabe parâmetros para compreender esse quieto deslizar de peixe, ave. Criatura da terra, seu temor era quem sabe perder o apoio dos pés. E criatura do fogo, A Grande Falta crepitava em chamas dentro dele.
Sua invisibilidade no entanto não o invisibilizava: encadernava-o meticulosa em um determinado corpo e uma voz particular e uns gestos habituais e alguns trejeitos pessoais que, aparentemente, eram ele mesmo. Por isso não é verdade que não o veriam. Veriam e viam, sim, aquela casca reproduzindo com perfeição o externo dele. Tão perfeito que nem ao menos provocava suspeitas aumentando as pausas entre as palavras, demorando o olhar, ralentando o passo daquele falso corpo.
Atrás da casca, porém, o cristal incandescia. Debaixo da terra, fogo-fátuo soterrado tão profundamente que a pele nem reluzia.
Alguma coisa que jamais teria, e tão consciente estava dessa para sempre ausência que, por paradoxal que pareça, era completo nesse estado de carência plena. Isso acontecia apenas quando dentro Dela, pois ao desembarcar, em vez de sorrir ou fazer coisas, freqüentemente limitava-se a chorar penoso como se apenas a dor fosse capaz de devolvê-lo ao estágio anterior. A dor desconsolada e inconsolável, em soluços que o sacudiam cada vez mais fortemente, a cada um deles partindo-se a casca, quebrando-se a moldura, rachando-se o vidro, apagando-se o fogo.
Como uma outra espécie de felicidade, esse desembaraçar-se de uma também felicidade. Emerso, chafurdava em emoções: tinha desejos violentos, pequenas gulas, urgências perigosas, enternecimentos melados, ódios virulentos, tesões insaciáveis. Ouvia canções lamurientas, bebia para despertar fantasmas distraídos, relia ou escrevia cartas apaixonadas, transbordantes de rosas e abismos. Exausto, então, afogava-se num sono por vezes sem sonhos, por vezes - quando o ensaio geral das emoções artificialmente provocadas (mas que um dia, em outro plano, aquele da terra onde, supunha, gostava de pisar, aconteceriam realmente) não era suficiente - povoado com répteis frios, a tentar enlaçá-lo com tentáculos pegajosos e verdes olhos de pupilas verticais.
Não saberia dizer com certeza como nem quando aconteceu. Mas um dia - um certo dia, um dia qualquer, um dia banal - deu-se conta que. Não, realmente não saberia dizer ao menos do que dera-se conta. Mas foi assim: olhando-se ao espelho, pela manhã, percebeu o claro reflexo esverdeado. Está de volta, pensou. E no mesmo instante, tão imediatamente seguinte que confundiu-se com o anterior, cantava, novamente ele mesmo. No segundo verso, pequena contração, tinha novamente entre os dedos o caco de vidro luminoso. Mas antes que a mão sangrasse, havia preparado um drinque, embora fosse de manhã, e bebia lento, todo intenso. Antes de engolir o líquido, seu corpo ganhou vértices súbitos, emoldurando o desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos abertas, olhos fixos na distância.
Foi um dia movimentado, aquele. Sua casca partia-se e refazia-se, entardecer sombrio e meio-dia cegante intercalados. Fumou demais, sem terminar nenhum cigarro. Bebeu muitos cafés, deixando restos no fundo das xícaras. Exaltou-se, ausentou-se. No intervalo da ausência, distraía-se em chamá-la também, entre susto e fascínio, de A Grande Indiferença, ou A Grande Ausência, ou A Grande Partida, ou A Grande, ou A, ou. Na tentativa ou esperança, quem saberia, de conseguindo nomeá-la conseguir também controlá-la.
Não conseguiu. Desimportou-se com aquilo. Tomado a intervalos pelo anônimo, atravessou a tarde, varou a noite, entrou madrugada adentro para encontrar a manhã seguinte, e outra tarde, e outra noite ainda, e nova madrugada, e assim por diante. Durante anos. Até as têmporas ficarem grisalhas, até afundarem os sulcos em torno dos lábios. Houvesse uma pausa, teria pedido ajuda, embora não soubesse ao certo a quem nem como. Não houve. Mas porque as coisas são mesmo assim, talvez por certa magia, predestinações, sinais ou simplesmente acaso, quem saberá, ou ainda por ser natural que assim fosse, e menos que natural, inevitável, fatalidade, trágicos encantos - enfim, houve um dia, marco, em que o tocaram de leve no ombro.
Ele olhou para o lado. Ao lado havia Outra Pessoa. A Outra Pessoa olhava-o com cuidadosos olhos castanhos. Os cuidadosos olhos castanhos eram mornos, levemente preocupados, um pouco expectantes. As transformações tinham se tornado tão aceleradas que, no primeiro momento, não soube dizer se a Outra Pessoa via a ele ou a Ela, se se dirigia à moldura, à casca, ao cristal ou ao desenho, ao corpo original, às gotas de sangue. Isso num primeiro momento. Num segundo, teve certeza absoluta que se tinha desinvisibilizado. A Outra Pessoa olhava para uma coisa que não era uma coisa, era ele mesmo. Ele mesmo olhava para uma coisa que não era uma coisa, era Outra Pessoa. O coração dele batia e batia, cheio de sangue. Pousada sobre seu ombro, a mão da Outra Pessoa tinha veias cheias de sangue, latejando suaves.
Alguma coisa explodiu, partida em cacos. A partir de então, tudo ficou ainda mais complicado. E mais real.

Caio Fernando Abreu

19.11.09


Tenho me sentido muito extensa. Se me toco, passeio com os dedos em quilômetros de estrada e quando penso que terminei, mesmo que tenha passado pelos mesmos lugares, ainda falta percorrê-los mais uma vez, mais uma vez. Quando pressiono as mãos sobre a pele sinto a minha pulsação, no peito o estufar da respiração cheia de estremecimentos, histórias caminhando por baixo da carne, em lugares que com as mãos eu não posso mais alcançar. Tenho me sentido assim, imensa, em altura, largura e profundidade. Se eu gritar, é como se a voz ecoasse em uma caverna fundo dentro de mim ou em um penhasco vazio há milênios, de terras não exploradas, onde não chegam as bocas, nem as palavras.

18.11.09

Eu fiz um samba
À meia luz e casa vazia
Busquei cada palavra
Com carinho fiz a melodia
Até ergui os braços em lamentação

Brinquei com as pernas
Cantei de olhos fechados
Fingi dançar contigo
Pra depois sorrir magoado
E segurei a lágrima até o refrão

Chorei minhas dores
Explodi de amores
Fui no improviso…
Assinei embaixo e ficou bonito
Meu samba de amor em vão

17.11.09

É meio extremista, embora eu acredite na importância da moderação, eu ainda não consigo ser ponderada. Eu subo e desço em segundos. Não gosto de ser assim, mas é assim que sou e, confesso, às vezes tem suas vantagens. É extremista como um adeus. Adeus é coisa de filme, de livro. É de muitas lágrimas. Adeus é tchau para sempre? É estranho dizer adeus. Então, hoje eu li um texto, mais um daqueles que dizem que viver é agora, e juntei com outros do Caio Fernando Abreu que, você sabe, fazem a minha cabeça. E aí… Por mais que eu acredite que um adeus é um ato extremista, na medida que o tempo vai passando, inevitavelmente tudo vai mudando, e é como se eu dissesse um adeus por dia. A vida é efêmera e eu sou bastante mutável. Quem dera isso não fosse um adeus, fosse um alerta. Não que eu acredite que um alerta à essa altura mudasse algo, porque na verdade o adeus de hoje já aconteceu. Eu também sinto muito. Sabe, não é romântico, não vai durar muito, aquilo que não apodrece com o tempo eu já tenho comigo, você também. Algo foi acrescentado sim, aqui dentro, o mais é perecível. Eu sei que é triste e que quebra os nossos sonhos, mas é a realidade da vida. Pode ser que eu me demore mais um pouco aqui, tem vezes que eu me demoro, nem tanto pela alegria que causa, mas pelos ingredientes que me envolvem. Mas pode ser que seja breve, não sei. Eu até ia dizer adeus, mas não vou, não precisa, que o dia de amanhã se encarrega, metade desse já passou.

16.11.09


Ouço o canto dos pássaros, sons da minha casa. Não é bonito que os pássaros acordem para ver o sol e durmam quando ele cai? Como se sua existência fosse guiada por essa luz maior. A essência da vida a própria vida, a luz do sol, força ancestral. Comecei a suspirar alto, de uns tempos para cá, e passei a tentar entender os suspiros que também sempre ouvi pela casa. Não sei ao certo o que me leva a suspirar, não consigo parar minha mente no exato momento para descobrir qual pensamento engatilha aquela respiração funda, seguida de uma expiração sonora. Não é difícil descobrir, as dores são muitas, mas poucas são as razões. Ausência, distância, solidão, medo, vontade de fugir, esconder-se. Eu também sou meio pássaro, difícil de cativar, aparência frágil, força que vem da superioridade de poder voar. Eu também olho para o céu e me sinto um pássaro engaiolado, pensando em como e se algum dia voltarei a voar. Talvez por isso, meus pássaros e eu nos entendemos tão bem, sofremos da mesma incapacidade e do mesmo sonho.

Há em mim esse olhar que fisga grãos de areia, recolhe-os e dedica horas em decifrar de que lugar vieram e qual vento os trouxe. A necessidade de entender o universo que nos cerca para, quem sabe assim, encontrar pelo menos uma resposta sobre o próprio coração.

15.11.09

Pensei em esconder. Em não escrever hoje. Mudei de idéia. Este texto vai para quem me lê.

Eu tenho os meus alentos, alguns me vieram naturalmente, outros eu fui inventando. Alguns são especiais, por exemplo, a escrita. Escrever me ajuda a compreender o que penso e o que sinto. Outros, eu dispensava, mas. Outro grande alento meu é caminhar, eu não caminho no parque, por vezes nem mesmo com a roupa apropriada, caminho quando preciso, resolvo na hora, faço a opção por me transportar com meus próprios pés. Quando estou caminhando penso com mais clareza. São tantos pensamentos em mim. Tem uns que já moram comigo, não me largam aonde quer que eu vá. Outros visitam com menor ou maior frequência. Alguns são bem-vindos, outros não, mas confesso que agora, enquanto escrevo, até por estes sinto carinho. Meus pensamentos no fim das contas é que compõem o que sou, cada cor, cada palavra, eles saltam de mim antes do corpo.

Hoje, parece que não achei alento… A mente fica vagando perdida entre idéias que não se encaixam. Sempre as mesmas, eu tomo consciência delas, mas na prática elas não se encaixam. Eu fico parada entre o que eu busco entender e estas idéias que se fixaram há tanto tempo no meu eu, sobre mim, sobre a humanidade inteira, sobre o que eu fico sem querer repetindo, repetindo, repetindo calada. Não há alento para esta vontade absoluta de se expressar. VONTADE TAMANHA DE SER QUEM SE É. SOBERANA E NECESSÁRIA.

13.11.09

A tua ausência me desola, e a tua presença é um perfume que agita o meu coração. A minha imaginação te inventa, junta a lembrança de ti com palavras soltas e com tudo que eu criei. Tem aquele tu que não és, que não sabes que és para mim. Cria-se uma rede de um sem fim de possibilidades. Me pego imaginando como te contar meus segredos. Preciso dar jeito no que sinto, tenho andado por aí meio amassada, avoada, até mesmo meio feia, deixando de olhar para os dois lados da rua, esquecendo guarda-chuvas. Às vezes, me chamam a atenção, e só aí eu me volto sem ter a menor idéia do que estão falando, me atrapalham enquanto estou longe pensando em ti. Meu sentimento não tem explicação, e os sentimentos sem explicação são os mais intensos. Sentimento não precisa de nome, de lógica, de razão de existir, sentimento acontece e pronto. E quando é demais me deixa assim, desfalcada, primeiro me desperta, dá vida, depois me esgota em horas de sono perdidas. Andei tentando achar um lugar calmo para ti na minha vida, uma gaveta, uma porta, uma cadeira na arquibancada, um travesseiro na cama. Não consegui, não cabes. És como uma música que não sai da minha cabeça.

11.11.09

Tem dia que a alegria
Brota de dentro
Ultrapassa meus poros
E se espalha

Eu digo que te mando uma música
E te mando vinte e cinco
Eu canto algo como
I better knock on wood, baby

Nestes dias
Nada fica por dizer
Nada fica por fazer
Existir é suficiente

Nestes dias
Eu respiro o momento